Ser feliz é uma escolha

Foto por Joshua Earle

Ok, ok, eu concordo que a frase do título é um clichê que é repetido por 11 das 10 maiores filosofias de vida e profissionais de “life coaching”. Mas vamos desconsiderar isso (e também nosso ranço por coachs) só por um momento e avaliar o quanto de verdade existe nessa frase, tudo bem?

Há séculos a humanidade descobriu os potenciais de nosso cérebro e o poder que ele possui sobre o controle de nosso corpo inteiro. Tudo o que acontece conosco, todas as ações, reações, sensações, sentidos e arrisco apanhar dizendo que também sentimentos, são comandadas direta ou indiretamente por nosso cérebro. Isso nos 3 níveis de consciência (segundo Freud): consciente, subconsciente (ou pré-consciente) e inconsciente.

Um pouco de teoria

No nível da consciência, tudo o que fazemos é reflexo de nossas escolhas imediatas. Nós optamos, de forma completamente desperta, fazer determinada coisa e fazemos. E temos os feedbacks, a memória e a justificativa racional dos reflexos dessas ações. O consciente é a menor parte das três, embora imaginemos o contrário. Nós vemos um cachorro na rua, decidimos passar a mão nele e ele nos morde. Sentimos a dor e o arrependimento imediato, e sabemos exatamente tudo o que aconteceu, aceitando as consequências de nosso ato.

Iceberg de Freud - A psiquê humana
Iceberg de Freud – A psiquê humana

O nível da pré-consciência é responsável por armazenar a memória, informações e lembranças que podem vir à tona para o nível consciente, mas não permanecem por lá. É uma grande caixa de dados e sentimentos associados, que podemos acessar por vontade própria ou podem surgir disparados por algum gatilho – bom ou ruim. Um cheiro que te lembra uma fase de sua vida ou uma pessoa que você não vê há muito tempo, por exemplo. Ou avistar um cachorro da mesma raça que aquele que te mordeu e lembrar imediatamente da dor, disparar seu instinto de sobrevivência te deixando atento (ou com medo).

No nível inconsciente estão nossos instintos, nossos desejos reprimidos, traumas vergonhosos, coisas que estão tão entranhadas em nós que são difíceis de serem acessadas, trabalhadas, modificadas (difíceis, porém possíveis) e não estão acessíveis no nível racional, a consciência.

Se por um acaso acontece algo em nossas vidas de forma repetida ou de algum modo muito traumático, isso pode vir a ficar gravado de um forma mais profunda, no nível inconsciente (a maior parte de nossa mente e a mais importante, segundo Freud). É nesse nível que experimentamos diversas coisas que de certa forma definem nosso modo de viver e enxergar a vida – e a nós mesmos. É aqui que ficam gravadas, por exemplo, as ideias fixas e as crenças limitantes.

É aqui que as coisas começam a fazer sentido

Se sabemos que as 3 camadas de nossa mente interagem e podem levar e trazer informações (vamos chamar tudo de informação, pra facilitar: dados, memórias, sentimentos, tudo é informação), podemos concluir que nossas escolhas e suas consequências geram informações que são gravadas no inconsciente ao longo do tempo e essas informações, quando disparadas por um gatilho, são recuperadas gerando reações, estímulos e outras informações no nível de consciência através da pré-consciência (mais ou menos isso, tá? não sou psicanalista, releve).

Então, quando fazemos algum tipo de terapia, análise, hipnoterapia, constelação, etc., o que estamos fazendo é tentar acessar essas informações gravadas profundamente em nossas mentes, para entender certos gatilhos, medos, padrões comportamentais, ideias fixas e crenças limitantes que nos bloqueiam de fazer algo que gostaríamos, que nos deixam de uma forma que não gostaríamos de estar, que nos fazem nos comportar de um jeito que não queríamos. E buscamos isso como forma de buscar a felicidade de alguma forma.

Repetição pode ser ruim ou boa

O nosso corpo inteiro foi programado para poupar energia. E tudo o que fazemos (até mesmo raciocinar) gasta energia. Por que é tão difícil emagrecer apenas fazendo dieta? Porque nosso corpo entende em pouco tempo que estamos com restrição alimentar e adapta-se para gastar menos energia, economizar. Daí a gente começa uma dieta, perde uns kilos no início e depois estabiliza, às vezes até volta a engordar. É nosso cérebro dizendo pro corpo segurar a onda no gasto de energia senão a gente vai morrer (é, o cérebro tem essa piração de que tudo a gente vai morrer).

Você pode utilizar recursos ou técnicas para te ajudar a criar e mudar hábitos

O exato mesmo comportamento é feito com nosso raciocínio, o acúmulo e uso das informações em nossa mente. Nosso cérebro identifica padrões de comportamento e cria uma espécie de “rotina pré-definida”. Isso pode ser absolutamente qualquer coisa, desde o local onde a gente sempre guarda as chaves até se a gente gosta ou não de determinado sabor. O objetivo é facilitar nossas escolhas e nossa vida. Pode ser muito benéfico, como poder dirigir ou andar de bicicleta sem precisar “pensar” nas coisas que a gente faz automaticamente. Memória muscular. Mas pode ser muito ruim quando se trata de um vício ou de crenças limitantes.

Toda vez que enfrentamos uma situação desafiadora, que nos gera sentimentos conflitantes, medo, insegurança, vergonha, nós somos levados a tomar decisões. Tanto os sentimentos quanto as decisões gastam energia e suas consequências são recompensas para o cérebro ou punições. Se tomarmos uma decisão e o resultado for positivo, somos inundados com sentimentos bons como orgulho, autoestima, encorajamento, satisfação. Se o resultado for negativo, a tendência é vir a frustração, vergonha, medo, tristeza, etc. Normal, isso é ser humano. Mas nós não somos preparados durante a vida para encararmos naturalmente nossos sentimentos negativos.

Ao não acolher os resultados negativos de nossas ações e não entendermos os sentimentos gerados por eles como normais, parte de nosso aprendizado, nós registramos em nosso inconsciente a informação de que aquela decisão que tomamos é ruim. Conforme outras informações parecidas são gravadas, o cérebro – que quer nos poupar de gastar energia, lembra? – vai criar um padrão: “olha, não faz mais isso não que vai dar merda”. Daí, toda vez que enfrentamos uma situação parecida, nossa decisão vai ser na direção da segurança, do conforto, da economia de energia. Crença limitante.

“Não posso, não consigo, se eu fizer isso vou me ferrar”

E como podemos mudar isso? É possível?

Sim, é bem possível. Eu poderia apenas dizer “faça terapia”, mas essa é a resposta curta. A resposta longa é “quebre os padrões” e “decida mudar”. Mas decisões sinceras e honestas, corajosas, desejos reais de mudança só funcionam com uma coragem insana e um compromisso consigo mesmo REAL.

Se sabemos e acreditamos que nosso cérebro controla tudo, o primeiro passo é racionalizar o que não é racional hoje. Você tem medo de algo e nem imagina o motivo? Você está numa situação em sua vida que é danosa pra você, você sabe dos danos, possui recursos para sair dessa situação e não entende o motivo de não conseguir sair? Você tem uma resistência imensa de fazer algo simples que todo mundo faz, até mesmo pessoas que você considera ser “menos capazes”, mas você trava? Racionalize. Liste todas as coisas que te prendem nessa situação, todas as razões para você não estar nessa situação e também possíveis ações ou soluções para resolver as que te prendem.

Quando a gente escreve, pensando de forma racional, a gente toma o primeiro passo que é enxergar de forma mais isenta possível a situação, da mesma forma que outras pessoas de fora enxergam e você não consegue porque está envolvido demais – e o seu cérebro já está economizando energia e tomando as decisões por você. Quer virar o jogo usando as mesmas armas que te colocaram nessa situação?

Então DECIDA MUDAR TODO DIA. Faça ESCOLHAS. Entenda que vai ser difícil mudar, como qualquer hábito, mas que você VAI conseguir. Escolha TODO DIA essa mudança, de forma racional. A repetição da sua decisão vai ensinar ao seu cérebro o novo caminho, o novo padrão, e em algum tempo você não vai precisar raciocinar mais essa escolha, ela vai estar gravada e seu cérebro vai fazer o papel que lhe é atribuído, te poupando energia. Isso significa parar de sofrer por essa nova escolha.

O que você vai mudar a partir de hoje?

Fotos que ilustram esse texto por Nubelson Fernandes e Joshua Earle

1 comentário em “Ser feliz é uma escolha”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *