Manoel Netto

Designer de Produtos Digitais

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Amazon Just Walk Out e a polêmica da inovação novamente

Em março e abril foram divulgadas diversas matérias dizendo que a Amazon mentiu sobre sua tecnologia Just Walk Out. Afirmavam que não existia IA, apenas um monte de pessoas vendo vídeos das compras e identificando manualmente os produtos. Mas o que há de verdade nisso? E o que podemos refletir?
Amazon Go Store

Mais uma polêmica envolvendo IAs surgiu há algumas semanas e foi disseminada em sites de todo o mundo, cada um adicionando seus próprios pontos de entendimento (ou falta dele), criando uma imensa rede de desinformação acerca do assunto.

Trata-se da tecnologia Just Walk Out, da Amazon, que foi anunciada em 2016 e implantada em várias lojas Amazon Go e Amazon Fresh. A solução de pagamento automático que não envolve caixas ou intermediários foi anunciada como uma grande novidade do comércio tradicional que estaria incorporando inovações do mundo digital e do e-commerce. Com essa tecnologia, o cliente apenas pegaria seus produtos direto das prateleiras e iria embora (just walk out), sendo cobrado posteriormente pela Amazon, que identificaria o cliente e os produtos com o auxílio de Inteligência Artificial (AI) e Aprendizado de Máquina (Machine Learning).

A polêmica da IA falsa

Acontece que foi divulgado, por grande parte da imprensa, incluindo a especializada, que a Amazon não teria tal tecnologia e estaria utilizando cerca de 1.000 pessoas reais para assistir vídeos das compras e identificar – manualmente – os produtos a serem faturados.

Isso é uma meia-verdade. Alguns veículos e profissionais sabiam disso e divulgaram matérias duvidosas. Outros apenas embarcaram na “notícia bomba” e divulgaram do jeito que entenderam.

A tecnologia existe, sim, e a Amazon não a descontinuou. Continua oferecendo a terceiros e usando em algumas de suas lojas menores e especialmente localizadas. Porém, as pessoas contratadas também existem (ou existiam). Elas desempenharam o papel de revisão e treinamento da solução, validando o que era identificado nas compras antes de enviar a fatura ao cliente.

Então qual o problema?

Toda nova tecnologia – e principalmente quando estamos falando de disrupção – precisa de validação e treinamento, testes, protótipos. Isso é o que faz as soluções evoluírem, os erros diminuírem e os prejuízos também. No caso da Amazon, a meta era que apenas 5% das compras fossem validadas por seres humanos, mas após 2022, essas validações chegaram a 70% das compras e não caíram, tornando a operação extremamente cara.

A decisão de fechar algumas lojas Amazon Fresh não tem relação com isso, mas a substituição da tecnologia Just Walk Out na maior parte das lojas Amazon Go por outra solução “cashierless” (sem caixa) – um carrinho de compras inteligente – foi um movimento necessário para viabilizar a continuidade das lojas físicas Go, além de um “passo para trás” na validação da solução Just Walk Out. Como ela continua existindo, porém em lojas muito menores, o volume de dados a serem validados é muito menor e é possível continuar a pesquisa e desenvolvimento dessa tecnologia, sem impactar no negócio como um todo.

Não estamos preparados para construção de inovação

O que me parece, avaliando aqui do meu canto de reflexão, é que nós estamos muito mal acostumados a sermos impactados com “novidades prontas”. Tudo tem que estar perfeitamente funcional e maravilhoso no lançamento. E ainda melhor, com novas e surpreendentes funcionalidades a cada anúncio, para que não deixemos a perplexidade e admiração murcharem nem um pouco.

Agile e a construção de inovação

Sinto falta um pouco daquela fase em que tudo era “Beta” (ahhh os anos 2000) por um longo tempo e as pessoas achavam perfeitamente normal clicar em um botão que não fizesse nada ou esbarrar em algum erro ao tentar efetuar uma atividade simples, como apagar um e-mail. “Ah tudo bem, é Beta”. Hoje nada pode ser Beta, não existe mais espaço para erros, melhorias e crescimento que não seja aperfeiçoar o que já é perfeito.

Eu – que trabalho com Agile, Lean, Design Thinking e outras metodologias e filosofias que apostam em protótipos, validações, Fail Fast – fico um tanto desapontado que tenhamos retrocedido nessa questão. Eu amo trabalhar com inovação, e para isso é necessário abraçar a possibilidade do erro, da falha, do ajuste do percurso enquanto estamos em movimento.

Newton, o PDA da Apple
Newton, o PDA da Apple, lançado em 1993

A “falha” pode começar direto na ideia de solução e ser identificada com um workshop prévio, por exemplo, economizando muito dinheiro ao não se investir em algo que pode ser uma ideia ruim. Mas também pode ser detectada posteriormente, no início do projeto, através dos feedbacks dos usuários ou identificação de impedimentos caros, integrações muito complexas ou qualquer outro ponto.

O ponto aqui é: inovação não é um caminho reto e perfeito. E precisamos aceitar isso para inovar. E nem sempre ser o primeiro a lançar algo revolucionário, é certeza de sucesso. Ninguém se lembra do Assistente Pessoal que a Apple lançou antes de todo mundo (e foi um fracasso). Anos depois a 3Com lançou o Palm e estourou tanto que virou uma empresa. E hoje a Apple domina o mercado de “assistentes pessoais” com o iPhone.

E você? O que acha sobre isso?

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Uma resposta

  1. Poxa, concordo demais com essa parte! A gente está tão acostumado com tudo pronto e perfeito que esquece que a inovação é um processo meio bagunçado. A época do “Beta” realmente era diferente e hoje em dia a gente não vê tanto mesmo. Tudo bem se algo não funcionasse direito, era normal. Hoje em dia parece que não pode ter erro mesmo. Tudo é imediato, músicas, séries, apps, vídeos, tudo. A inovação precisa desse espaço pro erro, pro ajuste, senão a gente não evolui direito. É legal ver empresas como a Amazon tentando coisas novas e aprendendo com os desafios. Parabéns pelo post Mano!

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